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Como o Botox pode te ajudar a ter uma vida sem enxaqueca? - Entrevista transcrita com Dr. Claudio Watanabe

  • Foto do escritor: Telix
    Telix
  • 1 de dez. de 2025
  • 31 min de leitura

Atualizado: 9 de dez. de 2025

Marina: Hoje vamos entender como o Botox, isso mesmo, a toxina botulínica usada em procedimentos estéticos, pode te ajudar a ter uma vida plena, sem enxaqueca. Para isso, vamos conversar com o Dr. Cláudio Watanabe. Ele é neurologista em São José dos Campos e criador do programa Vida Plena Sem Enxaqueca. Esse programa chama muita atenção porque essa promessa de uma vida sem enxaqueca é algo que poucos médicos fazem aos pacientes com enxaqueca crônica. Então, Dr. Cláudio, você pode nos contar em quais circunstâncias indica que um paciente faça um tratamento para enxaqueca com Botox?


Dr. Cláudio Watanabe: Boa tarde. Primeiramente, obrigado pelo espaço. A gente conseguir falar um pouquinho sobre isso porque, hoje em dia, é muito difícil. As informações são muitas e nem sempre são confiáveis. Então, muito obrigado, primeiramente, pelo espaço.


Já começando aqui, respondendo você: quando é indicado o Botox para enxaqueca? Nos casos de enxaqueca crônica. O que é enxaqueca crônica? Como a gente diferencia isso? A enxaqueca crônica é aquela em que o paciente tem mais de 15 dias de dor por mais de três meses. Então, se tenho um paciente que, dos 30 dias, apresenta 15 dias de dor dentro desses 30, por mais de três meses, a gente já considera isso como enxaqueca crônica.


Aí, esse paciente sim tem indicação de realizar o Botox, sendo um tratamento nível A. Hoje, na medicina baseada em evidências, a gente tem alguns níveis de tratamento, e o nível A é sempre o melhor. Depois disso, vêm os tratamentos menos eficazes. Então, atualmente, o Botox para enxaqueca crônica é um tratamento nível A.


Para enxaqueca episódica, aquela com menos de 15 dias, ele não é indicado, não é um bom tratamento. E também existem situações, por exemplo, quando temos uma cefaleia por uso excessivo de analgésicos, que é quando o paciente toma mais de 10 ou 12 analgésicos por mês, por mais de três meses. Nesses casos, o Botox também não deve ser indicado.



Marina: Entendi, doutor. A gente que agradece a sua participação aqui no programa e na nossa plataforma. Então, para o pessoal que está nos assistindo: se você tem enxaqueca por mais de 15 dias por mês, considere a possibilidade de usar o Botox. Doutor, o Botox são injeções mesmo, que a pessoa aplica na cabeça, é isso mesmo?


Dr. Cláudio Watanabe: Exatamente, o Botox é o mesmo, né? Quando a gente fala “Botox”, estamos usando um termo mais popular, porque existe a marca Botox, que realmente foi a primeira aprovada para isso, tem bula para isso, é a marca Botox. Mas o que utilizamos é a toxina botulínica. Outras toxinas botulínicas também são usadas, porque “toxina botulínica” é o nome genérico que o pessoal conhece, e é o mesmo produto utilizado na estética.


Então, como funciona? Diferente da estética, onde aplicamos somente alguns pontos faciais, para enxaqueca nós também aplicamos no rosto, inclusive alguns pontos parecidos com os da estética, mas fazemos aplicações em outras regiões.

Aplicamos nas regiões temporais, aqui nas laterais da cabeça, na região occipital, bem aqui na nuca, na transição da nuca para a cabeça. Também aplicamos na região dos ombros.


No total, são 31 pontos. Existem dois protocolos aprovados. O mais importante é o PREEMPT, sendo o nome do estudo que validou esse tratamento. Então, chamamos de protocolo PREEMPT, sendo justamente o estudo que evidenciou que o Botox é um tratamento nível A. Existe também outra técnica chamada follow the pain, que significa “seguir a dor”.


Normalmente, utilizamos 200 unidades. Precisamos abrir dois frascos de 100 unidades para o procedimento. O protocolo usa 155 unidades, e sobram 45. Muitas vezes, conseguimos combinar esses dois protocolos: elaboramos o protocolo com mais evidência, o PREEMPT completo, e acrescentamos pontos extras seguindo a dor do paciente. Ou então, se o paciente tem muito quadro miofascial, sendo aqueles “nozinhos”, sabe? Quando a pessoa aperta aqui e fala: “Nossa, estou cheio de nozinho aqui”. Esses nozinhos também melhoram com o Botox, porque ele relaxa a musculatura.


É por isso que usamos o Botox no rosto. O que acontece? A gente desenvolve linhas de expressão aqui, ó, eu mesmo estou cheio de linhas na testa. Quando fazemos Botox, a musculatura relaxa, então você não consegue fazer toda aquela movimentação, e assim acaba tendo menos linhas de expressão. Por isso, na estética, o Botox é considerado muito mais preventivo do que corretivo, diferente do ácido hialurônico e de outros produtos utilizados. Ele é bem mais preventivo, usado para evitar essas linhas de expressão e o envelhecimento precoce.


Marina: Legal, o doutor falou de injeção na cabeça e a gente já fica assustado, né? Deixa eu lhe perguntar: o senhor já atendeu algum paciente que teve alguma reação adversa devido ao uso do Botox?


Dr. Cláudio Watanabe: Não, eu nunca tive nenhum paciente que fez tratamento comigo e teve alguma reação adversa. A grande vantagem do Botox é justamente o perfil de segurança. Ele é realmente muito seguro, muito mesmo. Aqui no consultório, eu nunca tive ninguém que apresentasse um efeito adverso significativo.


Para não dizer que nunca houve absolutamente nada, uma vez uma paciente ficou com um roxinho pequeno no local da aplicação, uma pequena hemorragia. Isso eventualmente acontece, mas é algo raro, talvez uma vez a cada 30 pacientes, e é só um pontinho que não causa desconforto sendo reabsorvido após alguns dias.


Normalmente, é um procedimento muito seguro. Tanto que, inicialmente, o Botox era aplicado exclusivamente por médicos, e hoje em dia muitas outras profissões, pela segurança do produto, acabaram adotando também. Hoje temos dentistas, biomédicos e esteticistas que utilizam o Botox. Não entrando no mérito dessa discussão, mas o ponto é que ele é realmente muito seguro.


Os principais efeitos colaterais possíveis aparecem mais na estética. Quando a aplicação é feita muito próximo ao olho, pode acontecer de a pálpebra cair um pouco, sendo um dos efeitos colaterais mais conhecidos. Nunca aconteceu comigo, mas pode ocorrer em algumas situações. E quando o Botox é aplicado no pescoço para tratar distonias, como aquele quadro parecido com um torcicolo, em doses altas pode dificultar de engolir, sendo outro efeito colateral possível.


Mas no tratamento da enxaqueca, com o protocolo específico de enxaqueca, isso é praticamente impossível. Eu nunca vi acontecer, nem comigo aqui. Sempre foi muito tranquilo.


Marina: Muito legal, doutor. E, na literatura, existe algum efeito colateral possível com o uso do Botox? E como o médico lidaria com isso caso acontecesse?


Dr. Cláudio Watanabe: Isso, vamos lá. Existem sempre as reações alérgicas, porque alergia qualquer pessoa pode ter, então isso é uma questão importante. Mas o Botox é um produto muito pouco alergênico, diferente, por exemplo, de frutos do mar, como camarão, que dão muita reação alérgica. Ele realmente causa pouquíssimas reações alérgicas, então é muito tranquilo.


Existe um efeito colateral que pode acontecer quando a pessoa não sabe aplicar. Por exemplo, se ela aplica e atinge uma artéria ou uma veia importante, aplicando uma quantidade grande dentro dessa artéria ou veia. Nesse caso, a pessoa pode ter sintomas parecidos com botulismo. É raro, raríssimo, mas pode acontecer. Também pode ocorrer de aplicar uma dose muito alta em um lugar errado, deixando aquela musculatura muito, muito fraca.


Como eu falei do olho: se a aplicação é feita muito perto do olho, a pálpebra pode cair. A pessoa não consegue levantar o olho, e isso pode acontecer.


E como lidar com isso? Em uma situação mais grave de alergia, usamos antialérgicos e, se necessário, hospitalização. Se for uma alergia local, um antialérgico já resolve. Se surgirem sintomas parecidos com botulismo, aí é um quadro mais hospitalar mesmo, mas isso é extremamente raro. A pessoa precisaria aplicar de forma muito inadequada para isso acontecer.


No caso da pálpebra cair, infelizmente não há o que fazer além de esperar o Botox passar. O efeito dura cerca de três meses. Às vezes, depois de dois meses ou dois meses e meio, a pálpebra já começa a levantar de novo. É um processo reversível. Tanto é que precisamos aplicar o Botox a cada três meses.


Então, a grande chave do Botox é que ele é um processo reversível. É só esperar. É ruim, claro, ficar dois meses assim, mas não é algo que coloque o paciente em risco de vida ou que seja mais grave.


Marina: Bom, olha só, pessoal, é bem importante saber, né? Vocês que eventualmente estariam com medo de usar o Botox, como o doutor falou, é um procedimento super seguro, super tranquilo. Quem aí não conhece alguém que já colocou Botox? Muitas pessoas já colocaram e estão bem, então para usar esse tratamento para enxaqueca é o mesmo conceito.


E é bom termos falado também sobre a reversibilidade. Mesmo que exista algum efeito colateral, com um anti-alérgico ele passa, e, se for algo relacionado ao efeito do Botox, é só esperar os três meses que passa. Muito, muito legal, doutor. Obrigada por esses esclarecimentos.


Dr. Cláudio Watanabe: E muitas vezes, desculpa, só para complementar, as pessoas acham que a agulha vai “dentro da cabeça”. Outro dia mesmo veio uma paciente cujo marido proibiu ela de fazer porque acreditava que a agulha entrava dentro da cabeça. Mas não é isso. A agulha não entra na cabeça. Ela só encosta na musculatura e volta.

É uma agulha muito pequenininha, normalmente de 4 milímetros, realmente muito pequena, e ela fica só na pele. Não tem nada de furar osso. Às vezes as pessoas têm esse medo, mas isso não acontece. Não é uma agulha que prende, não é um procedimento profundo. É um procedimento bem superficial mesmo.


Marina: Espetáculo. Que bom. Agora vamos para a parte boa, né? Doutor, o senhor pode me dizer um pouquinho sobre como funciona esse programa Vida Plena Sem Enxaqueca? Uma parte disso é o Botox, mas como é esse programa, doutor?


Dr. Cláudio Watanabe: Esse programa nasceu, na verdade, de uma necessidade que eu observei por muitos anos tratando enxaqueca. Como é ensinado hoje na residência médica, na faculdade ou nos livros? Basicamente assim: se a pessoa tem dor, você dá um remédio para melhorar a dor; se ela tem dor muito frequentemente, você entra com um medicamento preventivo. Existe uma série de medicamentos, o Botox é um deles, e orienta-se o paciente a ter uma vida saudável. Ponto. É isso.


E o que acontecia? Os pacientes vinham para mim, eu tratava as dores deles, e eles diziam: “Doutor, reduziu muito, estou bem, estou conseguindo viver, estou conseguindo fazer as coisas.” Ótimo. E então o paciente me perguntava: “E agora, como é que vai ser? Eu vou usar esse antidepressivo para sempre? Vou usar anticorpo monoclonal para sempre? Vou tomar esse preventivo para sempre?” Alguns antidepressivos também funcionam.


O programa Vida Plena Sem Enxaqueca veio para responder essa pergunta. Ele nasceu dessa necessidade. A enxaqueca é ambiente + genética. Esses são os dois componentes principais. Da genética, infelizmente, eu não consigo mudar nada hoje em dia. Não existe uma terapia gênica disponível; eu não consigo modificar a genética do paciente. Até existe alguma suplementação ou medicamentos com evidência de mecanismos epigenéticos, ou seja, que alteram a expressão do gene, mas o principal é a questão ambiental.


Hoje já existe uma série de artigos científicos mostrando quais são as medidas ambientais, ou seja, não farmacológicas, que precisam ser feitas para melhorar e controlar a enxaqueca. A primeira coisa que o paciente precisa saber é: enxaqueca não tem cura. Quando falamos “cura”, é a doença deixar de existir. Ela vai estar lá pelo resto da vida. A questão é atingir controle.


Então, nós modificamos a vida do paciente de uma forma que ele aprende a se alimentar. E quando falo aprender a se alimentar, não é só “comer salada e proteína”. É o quê comer, como comer, os horários, as quantidades. Tudo isso influencia na enxaqueca. Existem estratégias para isso.


Tem a parte de hidratação, de atividade física, e a parte psicológica, que é importantíssima. A terapia cognitivo-comportamental trabalha muito a catastrofização da dor: o paciente entender a dor, reconhecer a dor, compreender que a dor não é um absurdo e aprender com ela.


Na primeira fase do programa, que dura três meses, o que eu acho mais legal é que, além da grande redução das dores de cabeça, o paciente volta dizendo: “Doutor, tive dor tal dia e tal dia, mas foi por causa disso e disso.” Ele mesmo, espontaneamente, já reconhece por que teve dor. Ele começa a aprender por que teve e por que não teve dor. Isso devolve controle para a vida dele.


E eu sempre digo: é uma questão de escolha. Eu não sou um médico que manda o paciente fazer algo. Eu explico que ele terá que escolher. “Ah, doutor, eu gosto de tomar vinho com a minha esposa, mas no dia seguinte tenho dor de cabeça.” Você terá que fazer uma escolha. Pode tomar o vinho? Pode. Mas provavelmente no dia seguinte terá dor.

Assim, o paciente começa a aprender o que pode e o que não pode fazer.


Uma coisa muito clara no programa é que, depois que fazemos a fase de dessensibilização do cérebro, porque um cérebro com dor atrás de dor fica mais sensível, como qualquer parte do corpo machucada, tudo vira gatilho. Qualquer coisa provoca dor. Tem paciente que diz: “Doutor, eu ia lavar a louça, senti o cheiro do detergente e já tinha dor.” Depois que melhoramos essa sensibilidade com as técnicas e com os medicamentos na primeira fase, o cérebro fica menos sensível. E, com o cérebro menos sensível, conseguimos identificar os gatilhos reais.


Eu mesmo tenho enxaqueca. Gosto de tratar enxaqueca porque sou uma pessoa com enxaqueca. Sofri muito, e hoje tenho a minha enxaqueca completamente controlada, sem analgésicos, sem nenhum tipo de medicamento, só com hábitos. Mas, por exemplo, eu não posso sentir cheiro de pipoca doce. É um gatilho muito específico para mim. Então, quando vejo um pipoqueiro fazendo pipoca doce, eu já desvio para evitar que aquele cheiro venha para cima de mim.


No final de três meses, o paciente começa a ter controle de novo. Isso significa que ele nunca mais terá dor? Não. Ele provavelmente terá uma dor ou outra. Mas, primeiro, ele vai saber por que está tendo dor. E, segundo, quando ele usar um medicamento de resgate, esse resgate vai funcionar muito melhor, porque um cérebro menos sensível responde muito bem a uma dipirona, um paracetamol, um sumax, um naramig, qualquer um deles.


Eventualmente vamos precisar usar, porque é a vida. Assim como quando temos uma cólica ou dor de barriga e tomamos um buscopan. Isso faz parte. O problema é quando a pessoa vive dependente disso e perde qualidade de vida..


Marina: Então, resumindo aqui, veja se eu entendi corretamente. Doutor, esse programa Vida Plena Sem Enxaqueca envolve, numa primeira parte, a escolha de um medicamento ou tratamento que pode ser Botox, anticorpo monoclonal ou até um antidepressivo, aliado a mudanças de estilo de vida que incluem nutrição, exercícios e a parte psicológica. Talvez seja isso que compõe essa proposta de Vida Plena Sem Enxaqueca. Em termos gerais, esse é o programa Vida Plena, certo?


Dr. Cláudio Watanabe: Isso. A estrutura é formada por mim, uma psicóloga, uma nutricionista e uma fisioterapeuta. E agora eu estou querendo colocar também uma educadora física. Então, estamos montando a equipe, deixando tudo cada vez mais completo. Começou só comigo e a nutricionista, depois entrou a psicóloga, depois a fisio e agora provavelmente entra a educadora física, para que o programa seja realmente bem completo e ofereça suporte ao paciente o tempo todo.


E, dentro disso, não é um trabalho tradicional. Existe uma metodologia por trás, uma metodologia que eu criei. Eu apelidei essa metodologia de 80 a 20. Por quê? Porque cada pessoa é de um jeito. Então, eu elaborei um questionário com uma série de perguntas e, a partir dessas respostas, eu começo a ver onde o paciente está “pecando” mais, onde está a maior dificuldade.


A partir disso, iniciamos as mudanças de estilo de vida de forma gradual, sempre começando pelo que será mais fácil para o paciente e trará mais benefício. São aqueles 20% de mudanças que trazem 80% dos resultados. Assim, vamos construindo uma melhora consistente.


Por exemplo, hoje atendi uma paciente que veio muito desanimada, dizendo que jogavam um caminhão de coisas para ela fazer e que ela não conseguia acompanhar tudo. Ela trabalha, tem filho, e a nutricionista anterior pediu alimentos que ela nem encontra no supermercado. Não é assim. A gente precisa fazer um trabalho efetivo, não adianta ficar só na teoria. Precisamos entrar no dia a dia do paciente.


E como fazemos isso? Não dá para mudar tudo de uma vez. Então, com essa análise inicial, que eu chamo de mapeamento inicial, eu avalio a vida do paciente e aponto os pontos críticos. A partir daí, vamos dos pontos mais críticos para os menos críticos, sempre colocando na balança o que o paciente consegue ou não consegue fazer.


Depois disso, eu passo tudo para a equipe, e a equipe me auxilia. Então, por exemplo, a psicóloga olha e diz: “Essa pessoa tem uma questão de ansiedade importante”, e vai trabalhar nisso. Se existe uma questão de relacionamento com o marido, com os filhos, sobrecarga, ela trabalha nisso. Se há um processo de luto, ela trabalha nisso. E a equipe inteira vai ajustando tudo junto, sempre em conjunto.


Marina: Entendi. E aí, doutor, o paciente entrando nesse programa, tendo essas dores de cabeça por mais de 15 dias por mês, começa essa mudança de vida junto com o medicamento. Em quanto tempo ele vai chegar nessa vida sem enxaqueca? Nessa vida plena sem enxaqueca?


Dr. Cláudio Watanabe: Olha, vou falar para vocês dos pacientes deste ano, tá? Nenhum paciente deste ano deixou de melhorar muito a qualidade de vida. Por exemplo, eu tenho um paciente, um homem, que tinha dores de cabeça todos os dias há 15 anos. Há 15 anos com dor de cabeça diária. Ele chegou aqui já tendo feito cirurgia na coluna cervical por causa da dor de cabeça, cirurgia no rosto por causa da dor. Ele me contou depois que já tinha gasto mais de 100 mil reais em tratamentos e nada melhorava. Quinze anos com dor diária.


Quem trouxe ele foi a esposa. Ele chegou desacreditado, bravo. Eu até achei que ele fosse brigar comigo quando entrou. Porque a pessoa com dor é a pior versão dela. Se você quiser ver a pior versão de alguém, coloca uma dor crônica nela. É isso.


E aí começamos a tratar direitinho. Quando terminou os três meses, no último mês ele tinha tido apenas dois episódios de dor de cabeça. Eu perguntei o que tinha acontecido nesses dois dias, e ele disse: “Ah, doutor… viajei para o Nordeste, um dia tomei um monte de caipirinha, no outro comi muita fritura.” Ou seja, ele já sabia por que teve dor. Ele escolheu aquilo. Não ia deixar de tomar a caipirinha dele. Tomou e teve dor. Faz parte. Mas não é algo que impede ele de viver, como antes.


Ele é empresário, de alta performance, viaja muito, e aquilo estava destruindo a vida dele. Hoje não. Hoje ele já consegue viver a vida normalmente. Porque se você tem só dois dias de dor por mês, e quando tiver dor você toma um analgésico e melhora, isso não é incapacitante. Se a pessoa não tem incapacidade, entendemos que ela está vivendo uma vida plena, mais tranquila, podendo pensar em outras coisas.


O paciente com enxaqueca crônica tem a vida orbitando em torno da enxaqueca. Tudo é sobre a dor. “Se eu sair com meu marido, posso ter dor.” “Se eu fizer atividade física, posso ter dor.” “Não vou combinar nada com meus amigos, posso ter dor.” “Perdi a apresentação do meu filho na escola.” Tudo gira em torno da enxaqueca.


Quando tiramos isso, a enxaqueca passa a orbitar a pessoa, mas como um detalhe, não como o centro. Isso é uma grande vitória. Devolve muita qualidade de vida.


A enxaqueca é uma das doenças mais incapacitantes do mundo. É realmente importante. Eu, como alguém que tem enxaqueca, sei o quanto é incapacitante. Você não consegue fazer nada. E ainda existe muito preconceito.


Por exemplo: quando uma mulher fala “estou com cólica, não consigo fazer nada”, outras mulheres entendem. Quando alguém diz que está com ansiedade, depressão ou burnout, há 15, 20 anos isso era visto como frescura. Hoje já entendemos como questão de saúde.


Com enxaqueca ainda não. A pessoa fala “estou com dor de cabeça”, e muitos dizem: “Ah, lá vem ela de novo…”, “De novo essa dor…”. Existe esse preconceito. E isso não sou eu que estou falando, são os próprios pacientes. Eles dizem: “Eu não aguento mais isso, não aguento mais ser essa pessoa que não consegue sair, não consegue render.” “Tenho apresentação para fazer, reunião importante, e não consigo.”

A enxaqueca acaba definindo muito o que a pessoa consegue ou não consegue fazer.


Marina: Entendi. Então seria o seguinte: a expectativa razoável para a pessoa atingir uma vida plena seria algo perto de três meses, dois a três meses. E essa vida plena significa que a pessoa, eventualmente, pode ter uma dor de cabeça, mas algo como um ou dois dias por mês, e uma dor controlada, que ela toma uma medicação e passa, ou simplesmente espera passar. Entendi.


Eu tenho uma filhinha com enxaqueca, né? E nós realmente passamos um tempo fazendo tratamento. Agora faz quatro anos que não precisamos mais usar medicação.


Ela melhora só controlando esses fatores ambientais, como o doutor falou. E é claro que, quando ela começa a ter dor de cabeça, eu já fico com aquele medo: “Meu Deus, vai voltar aquele terror.” Mas não. Ela melhora e não volta a ter dor. É algo bem eventual. E nós sabemos os fatores, sabemos tudo. Então é bem legal esse programa que o doutor está explicando.


Eu sei, na prática, que existe essa possibilidade: uma pessoa que tinha dor de cabeça todos os dias, o dia inteiro, passar a ter uma vida absolutamente normal e não precisar ficar tomando remédio para sempre. É possível ter esse controle com esses fatores. Achei bem legal o doutor ter esse programa e explicar isso.


E é bom as pessoas terem essa noção, porque no Telix nós ouvimos relatos de muitas pessoas com enxaqueca e, às vezes, elas têm essa ideia de que vão melhorar só com medicação. E, pelo que tenho visto, sem essa mudança de vida, a melhora da enxaqueca não acontece, né, doutor?


Dr. Cláudio Watanabe: É, precisa ter uma estratégia. O que eu vejo muito é o seguinte, isso é um dado estatístico, não sou eu que estou dizendo: um paciente com enxaqueca demora cerca de 17 anos para passar no médico, e cerca de 23 anos para passar em um médico especialista em enxaqueca.


E o que os pacientes fazem nesse tempo? Eles vão tentando pequenas coisas soltas. “Vou tentar essa dieta.” “Vou tentar fazer tal coisa.” “Vou tentar aquilo.” E vão fazendo tudo separado, sem estratégia, e nada funciona. Aí começam a seguir recomendações genéricas. No Instagram aparece alguém dizendo “usa mel com babosa que resolve”, a pessoa tenta. “Usa tal coisa que resolve.” “Toma banho gelado.” “Coloca o pé na água quente.” Já ouvi de tudo. “Coloca piercing.” E assim vai. A pessoa vai tentando coisas aleatórias, sem método nenhum. E não adianta. A enxaqueca é multifatorial.


Eu não estou inventando nada. Tudo isso vem de artigos científicos, trabalhos grandes, livros. O que fiz foi adaptar tudo isso a uma forma prática, uma forma com a qual sempre trabalhei. Essa abordagem 80 a 20 de que falei é uma forma que sempre fez sentido para mim. Sempre acreditei que precisamos entender a realidade do paciente e individualizar.


Não adianta chegar para um paciente com 115 quilos e dizer que ele precisa correr 10 quilômetros por dia. Ele não vai conseguir correr 10 quilômetros por dia. Eu preciso entender a realidade dele e dizer: vamos começar dando uma volta no quarteirão, vamos ajustar a alimentação, vamos diminuir um pouco as porções. Metas mensuráveis, mas alcançáveis. Assim a gente chega lá.


Sempre trabalhei dessa forma desde que me formei. Isso foi natural para mim. Aí pensei: por que não fazer isso para a enxaqueca? Por que não fazer isso da forma mais inteligente possível?


Então eu montei um questionário muito específico, inicial, que o paciente responde para que eu consiga mapear de verdade toda a vida dele. Porque nem sempre em uma consulta, mesmo de uma hora ou uma hora e meia, como muitas vezes acontece comigo, é possível entender uma pessoa que viveu 40 ou 50 anos. Não dá para compreender tudo de uma vez. Às vezes precisamos de vários encontros para entender o que a pessoa acredita, quais são seus problemas de vida, suas dores, suas rotinas.


A partir disso, conseguimos individualizar de verdade. E eu acho que essa é a grande chave: individualização.


Vou confessar uma coisa: eu não imaginava que teríamos uma resposta tão boa. De verdade, eu não imaginava. E nenhum dos profissionais que trabalham comigo imaginava também. Hoje somos nove profissionais na equipe. Todos dizem “nossa, Cláudio, eu não achava que a gente fosse conseguir um resultado tão bom.” E isso deixa a gente muito feliz. É muito legal ver as pessoas melhores.


Eu sempre faço um grupinho de WhatsApp com o paciente. E quando ele me manda uma mensagem dizendo “estou bem”, “estou sem dor”, isso anima o coração da gente.


Marina: Que legal! E deixa eu perguntar: como o doutor comentou que tem enxaqueca, como o doutor se sente em relação à sua doença, em relação a essa situação de ter enxaqueca?


Dr. Cláudio Watanabe: Olha, então, eu já me senti refém, eu já me senti refém da enxaqueca. Hoje eu não me sinto mais. Hoje, para mim, é algo totalmente controlado, e eu uso isso como um trampolim, vamos dizer assim, uma desculpa para o meu bem-estar e para a minha saúde de uma forma geral.


Porque, por exemplo, quem tem enxaqueca precisa fazer atividade física. E todo mundo já passou por isso: você faz atividade física, aí chega Natal, Ano Novo, dá uma pausa, bate aquela preguiça de voltar. Acontece comigo também, eu sou humano. Só que aí eu penso: opa, se eu não voltar, vou começar a ter dor de cabeça. Às vezes a dor aparece e eu penso “isso está acontecendo porque eu saí da minha rotina, da minha atividade.” Então lá vou eu voltar para a atividade física.


Eu uso esse problema como uma vantagem para mim no sentido de pensar: preciso voltar, preciso fazer atividade física, senão vou começar a ter enxaqueca. Com água é a mesma coisa. Estou sempre com a minha garrafinha, sempre bebendo água. Isso me faz bem, não só para a enxaqueca, mas para a saúde geral. Meu colesterol é bom, minha glicose, meus triglicérides, tudo isso acaba ficando bom porque eu mantenho esse cuidado com a saúde.


Eu tenho uma paciente que começou o programa há umas semanas e teve uma resposta muito rápida, está muito bem. Mas aí ela chegou com outras questões: “Doutor, como eu previno Alzheimer? Como eu previno AVC?” E eu falei: olha, se você continuar fazendo tudo que está fazendo para a enxaqueca, você já está fazendo 90% do que precisa para prevenir todas essas outras doenças, inclusive as cardiovasculares. Comer direito, fazer atividade física, dormir bem. Tudo isso faz parte da prevenção de praticamente todas as doenças crônicas.


Então é assim que eu me sinto. Eu tento usar isso a meu favor, em vez de ser uma sentença. Não é uma sentença para mim. Eu abracei esse estilo de vida, sei que é bom para mim e fica muito mais fácil pensar desse jeito.


Marina: Que legal, que bom, doutor. Eu vi, o doutor falou sobre colesterol e eu também vi um post no Instagram dizendo que níveis como ferritina, vitamina B12 e outros são acompanhados no seu programa de tratamento. Que tipos de exames um paciente deve levar para a primeira consulta para ajudar nesse processo?

Dr. Cláudio Watanabe: Normalmente, na primeira consulta, a gente pede exames bem completos. Por quê? Porque a primeira coisa que eu quero saber de um paciente que chega com dor de cabeça é se essa dor é realmente primária. Vou explicar.


Existem dores de cabeça primárias e secundárias. As primárias são as enxaquecas, as dores tensionais, ou seja, a dor de cabeça é a própria doença. E as secundárias são aquelas causadas por outras doenças, como um tumor, aneurisma, hipertensão intracraniana, trombose, entre várias outras.


Então, a primeira coisa é identificar isso. Existem alguns sinais e sintomas que nos mostram a necessidade de solicitar exames de imagem, principalmente, além de exames laboratoriais.


Como aqui fazemos um acompanhamento bem aprofundado, nós pedimos um screening completo da parte renal, hepática e dos eletrólitos, como sódio, potássio, magnésio e cálcio.


Também avaliamos o perfil de ferro. Por quê? Porque existem estudos mostrando que a ferritina baixa piora a enxaqueca. Nós temos vários componentes do ferro: o ferro sérico, que é o ferro circulante no sangue, e a ferritina, que são os estoques de ferro do corpo.


Antigamente, acreditava-se que a ferritina era apenas um estoque, sem outras funções. Hoje sabemos que ela participa de processos hormonais e de neurotransmissores. Às vezes, o paciente tem ferro normal, mas a ferritina está em 15 ou 20. Estudos mostram que ferritina acima de 75 ou 80 é adequada para quem tem dor de cabeça.


A vitamina B12 e a vitamina D também são bem estudadas em praticamente todas as questões neurológicas. Eu não gosto de super suplementação. Tem gente que quer colocar tudo lá em cima, mas não há necessidade. Eu brinco que vitamina é igual gasolina no carro: é bom ter o tanque cheio, mas não precisa jogar gasolina no banco e no teto.


Precisamos de níveis bons e seguros. Para B12, acima de 400 já é interessante na neurologia, mas normalmente gostamos acima de 600 ou 700, por segurança, para que o nível não caia rápido caso o paciente falhe na dieta.


A vitamina D idealmente fica acima de 30 ou 40. Ela participa de processos neurológicos, e como trato muitas mulheres acima de 40 ou 45 anos, ela também é essencial para saúde óssea, prevenindo osteopenia e osteoporose. Além disso, há relação com questões autoimunes.


Também pedimos avaliação hormonal: testosterona, estrogênio e progesterona, porque tudo isso influencia na enxaqueca. É importante entender se a mulher está na menopausa, perimenopausa, se usa anticoncepcional, qual tipo.


Mulheres com enxaqueca com aura não podem usar anticoncepcionais combinados, porque aumentam o risco vascular, como trombose e AVC. Então são contraindicados. Nessas situações, encaminho a paciente ao ginecologista com uma cartinha, tudo certinho, para definir outro método.

Marina: Ok, então, em resumo, é muito importante olhar o resultado dos exames dos pacientes. Precisa pedir exame de sangue, exame de imagem e avaliar tudo isso antes de estabelecer o melhor curso para o tratamento da enxaqueca.


E o doutor comentou que tem um questionário bem extenso, né, que o senhor aplica. Mas quais são as perguntas mais importantes que o doutor faz durante a primeira consulta? Depois do formulário e depois dos exames, quais são as principais perguntas que o doutor faz?

Dr. Cláudio Watanabe: As principais perguntas, por incrível que pareça, são para direcionar o diagnóstico. Porque eu recebo muitos pacientes que chegam aqui dizendo que têm enxaqueca, e quando vamos investigar, não é enxaqueca.


Teve uma paciente que veio há cerca de um mês. Ela dizia: “Tenho enxaqueca há muitos anos, desde adolescente.” E eu disse: tudo bem, mas deixa eu fazer algumas perguntas para confirmar se é enxaqueca mesmo. Ela respondeu: “Como assim? Todos os médicos já disseram que é enxaqueca.” E eu disse: deixa eu perguntar, posso? Ela ficou relutante, até meio brava, mas é necessário, porque às vezes não é enxaqueca. Existem muitos tipos de dor de cabeça.


As pessoas acham que existem dois tipos: enxaqueca e “dor de cabeça normal”. Não é assim. Existem famílias de dores de cabeça. Temos as tensionais, as migranosas (as enxaquecas) e as trigeminais autonômicas. Dentro dessas famílias, há uma variedade enorme, mais de 60 a 80 tipos diferentes de dor de cabeça.


Temos, por exemplo, cefaleia em salvas, migrânea com aura, migrânea vestibular, migrânea hemiplégica. Tem muita coisa. Eu sempre brinco com o paciente que a primeira coisa que precisamos fazer é dar “nome e sobrenome” para a dor. Quando damos nome e sobrenome, isso muda tudo.


Essa paciente que jurava ter enxaqueca, na verdade tinha cefaleia em salvas. É outra família, outro tratamento. E ela dizia: “Nunca melhorou.” Quando identifiquei corretamente e passei o medicamento de primeira linha para cefaleia em salvas, ela voltou dizendo: “Não tenho mais dor de cabeça, não sei o que aconteceu.” E eu disse: aconteceu que você tomou o remédio certo, porque descobrimos o nome e o sobrenome da sua dor.


Então, o mais importante é eu ter o diagnóstico correto. E às vezes o paciente não tem paciência, porque já passou por vários médicos. Mas eu preciso voltar lá atrás e perguntar tudo desde o começo. Os pacientes que continuam comigo geralmente têm paciência, porque também querem resultado. E resultado só vem com detalhes.

Casos fáceis já foram resolvidos, esses não chegam até mim. O que chega são os difíceis. E casos difíceis se resolvem nos detalhes.


Depois disso, vêm as perguntas sobre hábitos de vida e pistas clínicas. “Já teve resposta a tal remédio?” “Não teve?” “Tem histórico na família?” Todas essas coisas ajudam a entender tendências genéticas.


Por exemplo, pacientes com enxaqueca com aura têm certos padrões. Não é que precisamos fazer teste genético, mas existem artigos mostrando a relação fisiopatológica entre sintomas e genética. Com isso, consigo entender quais são as prováveis alterações envolvidas e até prever quais medicamentos provavelmente terão melhor resposta para aquele paciente.


Marina: Que interessante. Então… Eu já tinha visto um teste genético para medicamentos voltados à depressão e outros transtornos, em que a pessoa faz o exame e sai uma lista dos remédios que provavelmente funcionam melhor. Não existe algo assim também para enxaqueca?


Dr. Cláudio Watanabe: Esse teste é de farmacogenética. Ele é um teste muito interessante, não só para antidepressivos, mas para uma infinidade de medicamentos. Dá para testar antiepilépticos, vários tipos de remédios diferentes.


Para enxaqueca, em alguns casos ele pode ser interessante, mas eu peço pouco. Por quê? Porque é um teste caro e, na maioria das vezes, conseguimos resolver sem ele. Para depressão, por exemplo, temos muitos tipos de antidepressivos, cada um com um mecanismo diferente. Alguns são até parecidos, mas o teste ajuda a evitar muitas tentativas e erros.


Com antidepressivos, você dá um remédio e precisa esperar oito semanas, às vezes até doze, para ver se teve uma resposta. O paciente fica três ou quatro meses aguardando e, se não funciona, troca. Aí mais quatro meses, e troca de novo. Quando o paciente não responde a um ou dois antidepressivos, o teste farmacogenético pode ser útil, porque aumenta a assertividade.


Também pode ser útil em situações especiais, como pacientes com muitas alergias ou muitas restrições por outros motivos.


Para enxaqueca, seria o mesmo teste, mas na prática não há tanta necessidade. A gente consegue trazer o benefício mesmo sem ele. Até porque o foco não é o remédio. O remédio traz uma janela de alívio para estabilizar as outras áreas da vida, e depois tentamos retirar o medicamento o quanto antes.


Claro, existem casos em que nunca vamos conseguir suspender totalmente o remédio. Medicina é assim, não existe “sempre” ou “nunca”. Mas, hoje, esse é o caminho que os estudos mostram que funciona melhor: usar o medicamento como apoio inicial e, depois, equilibrar todo o resto para reduzir a dependência dele.


Marina: Ok. Doutor, e o senhor comentou dos pontos miofaciais no pescoço. O doutor faz algum exame clínico durante a consulta?


Dr. Cláudio Watanabe: Sim, o exame clínico cefaliátrico é muito importante. Vou dar um exemplo de uma paciente que atendi há alguns anos. Ela veio com muita dor na região do ouvido, muita dor mesmo. E ela disse para mim: “Se você não resolver minha dor, eu vou me matar.” Essas foram as palavras dela. Eu pedi calma e comecei o exame.


Fiz toda a parte neurológica, e também a palpação dos pontos craniométricos, da coluna, tudo isso. Olhamos o fundo de olho, que é algo muito importante, porque no fundo de olho conseguimos ver sinais de hipertensão intracraniana, ou seja, sinais de que a pressão dentro do cérebro está alta, o que pode ser uma causa secundária de dor de cabeça.


Dependendo do paciente, fazemos também otoscopia, que é olhar dentro do ouvido. E foi o que aconteceu com essa paciente. Eu perguntei: “A dor é bem aqui perto do ouvido?” Ela disse que sim. Aí fui examinar a região da mastoide, porque existem problemas de infecção da mastoide, tanto agudas quanto crônicas. E, ao olhar o ouvido dela, tinha um carrapato enorme preso no tímpano. Um carrapatão.


Ou seja, não era uma cefaleia primária. Era uma cefaleia secundária, causada por algo externo. Nesse caso, um carrapato. Eu até pensei em tirar, mas ele estava muito perto do tímpano, e eu não sou otorrino. Então escrevi uma carta, encaminhei ao otorrino, e pedi que ela me avisasse depois. O otorrino retirou o carrapato com o equipamento adequado, e ela melhorou. Ela me disse que ainda ficou com dor mais um ou dois dias por causa da inflamação, mas depois passou completamente. Ela até mandou mensagem agradecendo.


Ela achava que tinha enxaqueca porque todos diziam isso, e já vivia com essa dor há cinco ou seis meses. Mas não era enxaqueca.


E é por isso que precisamos questionar: será que é mesmo enxaqueca? Porque às vezes o paciente se autodiagnostica, e não é assim. Enxaqueca tem critérios diagnósticos muito precisos e bem definidos. Se não está dentro dos critérios, não é enxaqueca. É outra coisa.


Marina: Entendi. E o doutor comentou que recebe feedbacks dos pacientes que melhoraram. Como o senhor acompanha esses resultados e verifica se o tratamento foi eficaz? O senhor usa alguma metodologia para isso?


Dr. Cláudio Watanabe: Sim, nós usamos uma metodologia bem estruturada. Fazemos questionários semanais, então eu envio um formulário para o paciente responder semanalmente. É um formulário prático, com respostas de “sim” ou “não”, e essas informações chegam para mim pelo sistema.


Com isso, eu monto uma linha do tempo do paciente. Se ele tinha 15 dias de dor, depois passa para 8, depois para 4, depois para 2, eu acompanho essa evolução. Durante o programa, o contato comigo é ilimitado. O paciente tem meu telefone, pode me chamar quando quiser, e eu acompanho tudo bem de perto.


Eu também trabalho com expectativas claras. Por exemplo, espero que o paciente tenha uma redução de 50% das crises nas primeiras semanas. Se ele tinha 16 dias de dor e agora está com 8, ótimo, está dentro do esperado. Eu digo: “Você está no caminho certo, vamos continuar que vai melhorar ainda mais.” Porque não é algo que muda da noite para o dia, é uma construção.


Se está fora do esperado, normalmente eu mando mensagem: “Seu João, o que aconteceu?” Às vezes o paciente responde: “Ah, doutor, fiquei muito estressado, briguei com meu irmão, bebi demais.” Ok, entendi que ele cometeu alguns “pecados”, ele também sabe disso, corrigimos e seguimos.


Agora, se ele diz: “Doutor, fiz tudo certinho e mesmo assim tive dor”, aí eu trago esse paciente de volta para perto de mim. E eu penso: será que deixei alguma coisa passar? Aí eu reviso tudo, confirmo vários pontos e começo a investigar a fundo o que está acontecendo.


Eu sempre digo aos pacientes que nós temos uma série de armas e cartas na mão. Procedimentos, medicamentos, testes, estratégias. E vamos usando cada uma conforme necessário para chegar ao resultado. Às vezes o caminho é tortuoso. Às vezes erramos, ajustamos, voltamos, mudamos a rota. Medicina é assim.


Se fosse tudo simples, se tratássemos enxaqueca com “toma esse remédio aqui e pronto”, nem estaríamos conversando sobre isso.


Marina: E existem casos em que essa abordagem não funciona?


Dr. Cláudio Watanabe: Olha, essa é uma abordagem nova que eu estou fazendo com os pacientes. Eu desenhei tudo isso em 2024, e demorei muito para colocar em prática porque sou uma pessoa muito detalhista. Eu sou muito chato, muito perfeccionista, e isso às vezes até atrapalha, porque acabo demorando para colocar as coisas para funcionar. Eu precisava montar a equipe, precisava ter espaço para fazer isso, e antes eu só tinha um consultório. Agora nós temos três, então temos estrutura.


Desde que coloquei isso em prática, não teve nenhum paciente que não tivesse resultado. Nenhum. Todos tiveram o resultado que a gente esperava. Até hoje, não tivemos ninguém que não evoluísse. Estou sendo o mais sincero possível. Se tivesse alguém que não tivesse melhorado, eu falaria. É a vida, ninguém é perfeito.


Mas até agora está dando muito certo. E como eu falei para você, estamos tendo mais resultado do que eu imaginava. É maravilhoso. Todos os profissionais da equipe comentaram: “Nossa, eu não imaginava que a gente ia ter tanto resultado assim.”

Então, para nós, foi uma surpresa muito positiva. Eu agradeço muito a Deus, tenho fé, e acho que está super legal.


Marina: Que legal, doutor. Aqui no Telix a gente compara dados, parabéns, primeiro, porque isso é bem raro de ouvir. No Telix, analisamos dados relacionais de pesquisas científicas sobre tratamentos de saúde, e na plataforma é possível encontrar facilmente artigos científicos que abordam muitas das recomendações que o doutor faz, como a questão alimentar, por exemplo.


Mas ainda não publicamos nada sobre uma terapia combinada desse tipo. O doutor indicaria alguma pesquisa científica publicada que mostre a porcentagem de eficácia desse tipo de tratamento que o senhor aborda, combinando nutrição, exercício, sono, medicação, tudo junto?


Dr. Cláudio Watanabe: Existem pouquíssimos artigos que avaliam esse tipo de abordagem combinada, tá? Por exemplo, eu estive no Congresso Internacional de Cefaleia, que ocorreu agora em São Paulo no dia 27 de setembro. Foi um congresso muito grande, muito legal, e tinham muitos trabalhos e pôsteres. Conversei com profissionais de vários países: Japão, Turquia e muitos outros.


O que eu vejo hoje é que cada área trabalha isoladamente. Conversei com nutricionistas que estavam apresentando trabalhos ótimos, mas só da parte nutricional. O pessoal da fisioterapia apresentava apenas a parte de fisioterapia. O pessoal da psicologia apresentava só psicologia.


Então esse trabalho verdadeiramente integrado, em equipe, ainda aparece muito pouco na literatura.

Existem trabalhos mostrando melhora, sim, mas esse tipo de abordagem multidisciplinar combinando tudo, nutrição, exercício, sono, psicologia e medicamento, ainda é muito raro de ser publicado.


E é justamente um desejo meu. Estamos coletando todos esses dados. E, quando tivermos um “N” maior, ou seja, um número maior de pacientes acompanhados, minha intenção é publicar isso dentro de dois ou três anos. Quero algo mais robusto, para enviar para revistas importantes, como a Revista da Sociedade Brasileira de Cefaleia ou outras revistas científicas de expressão.


Mas, como eu falei, sou perfeccionista. Quero um N grande para mostrar esses resultados com segurança. Outro ponto é que a individualização torna a parametrização mais difícil. Porque para um paciente fazemos algo de um jeito, e para outro fazemos de outro. Isso torna mais complexa a padronização dos dados.


Mas, no geral, a metodologia e os profissionais envolvidos são praticamente os mesmos para todos os pacientes, o que deve permitir uma publicação consistente no futuro.


Marina: Que legal, doutor, eu espero que a gente publique no nosso site também essa sua pesquisa, que vai ser importante. E essa impressão de que tudo é muito dividido realmente acontece. Eu estive no IHC este ano, a equipe do Telix também, e percebi isso muito claramente. Uma pessoa de uma área dizia algo em uma palestra e outra, de outra área, dizia exatamente o oposto, e ninguém sentava para conversar. Falta muito debate interdisciplinar, especialmente na área de enxaqueca.


Agora, voltando aos nossos usuários, aqui vai uma pergunta que é importante para eles. É possível fazer o programa Vida Plena Sem Enxaqueca por telemedicina, doutor?


Dr. Cláudio Watanabe: Sim, é possível. A única parte que eu não consigo colocar via telemedicina é a fisioterapia manual, porque a fisioterapeuta faz liberações miofasciais, técnicas de liberação cervical e outros procedimentos que dependem do toque. Isso não dá para fazer por telemedicina.


Mas as orientações de exercícios cervicais, postura e alongamentos nós conseguimos fazer online. A terapia com laser, por ser manual e com equipamento específico, também não dá para fazer à distância.


Agora, a parte nutricional funciona perfeitamente por telemedicina. A parte psicológica também. A parte médica é possível, com algumas limitações físicas relacionadas ao exame clínico, especialmente o exame neurológico. Mas isso vale para toda a medicina. Se eu percebo que há necessidade de exame neurológico presencial, eu faço uma carta para o paciente. Se ele estiver em outro estado, como Sergipe, por exemplo, ele procura um neurologista local para fazer o exame. Esse neurologista me retorna com um relatório dizendo que está tudo normal, e seguimos com o acompanhamento.


Eu tenho vários pacientes que fazem o programa totalmente online, inclusive pessoas que moram bem longe. O resultado é o mesmo. Até hoje, não houve diferença entre pacientes presenciais e pacientes online.


Tenho um exemplo interessante: uma paciente que é piloto de navio, o primeiro piloto de navio que conheci. Na verdade, foi um casal, os dois são pilotos. Ela conseguiu vir a uma consulta presencial, mas como está sempre viajando e trabalhando no mar, todo o acompanhamento dela é online. E está indo super bem.


Marina: Que bom, doutor. Última perguntinha, porque estamos chegando ao fim do nosso tempo. Posso fazer a última perguntinha, doutor?


Dr. Cláudio Watanabe: Quantas você quiser.


Marina: Ah, que bom. O que o doutor gostaria que o paciente soubesse antes de entrar no programa?


Dr. Cláudio Watanabe: Eu gostaria que ele soubesse o seguinte: se ele quer uma mudança na vida dele, ele vai precisar mudar alguma coisa. O programa não é mágica, é uma construção. E é uma construção que fazemos juntos. É o médico, a equipe multiprofissional e o paciente.


O paciente precisa se dedicar e estar disposto a fazer essas mudanças. Claro que nós respeitamos a individualidade, o ritmo e as limitações de cada pessoa, mas existe a necessidade de comprometimento real.


Se o paciente chega dizendo que quer continuar vivendo exatamente do mesmo jeito, mas simplesmente deseja que a dor suma sem fazer absolutamente nada, nós podemos ajudar também? Podemos. Mas aí não é dentro dessa programação. Nesse caso, tudo tem ônus e bônus. Vamos ajudar, mas será à base de mais remédios, mais procedimentos, soluções mais imediatas e não sustentáveis a longo prazo.


Isso já aconteceu. Por exemplo, um paciente que estava estudando para concurso e disse: “Doutor, não consigo, preciso resolver essa dor agora.” Ok, resolvemos a dor dele para aquele momento. Ele fez a prova. Depois voltou dizendo: “Doutor, agora passei no concurso e quero resolver minha dor de cabeça de verdade.” Aí sim ele entra no programa, e fazemos toda a construção para melhorar a dor dele de forma definitiva.


Então, antes de entrar no programa, eu gostaria que o paciente soubesse que é necessário participar ativamente desse processo. Se ele estiver disposto, o resultado vem.


Marina: Que ótimo, que ótimo, perfeito. Pessoal, chegamos ao fim. Queria agradecer imensamente ao doutor Cláudio, foi fenomenal a palestra.


Queria dizer para vocês que estamos colocando um link aqui ao lado da palestra para o perfil do doutor Cláudio no Doctoralia. Não sei se vocês sabem, mas entrando no Doctoralia você consegue agendar a consulta, ver a data disponível, o valor da consulta, reservar seu horário e ter todas essas informações na hora.


É muito legal a parte do atendimento do consultório do doutor Cláudio, nós testamos e funciona muito bem. Vale a pena, tanto para agendar a parte online quanto para a consulta presencial.


Dr. Cláudio Watanabe: Se você estiver com dor de cabeça, entra em contato pelo WhatsApp que a gente dá um jeito, tá? Às vezes, na agenda online parece que não tem horário, porque ela é bem concorrida, mas eu sempre deixo alguns horários especiais para pacientes com dor de cabeça. Eu sei que quando a pessoa decide tratar é porque já chegou no limite do limite.


Então, se estiver com dor de cabeça, pega nosso WhatsApp, entra em contato e diz “estou com muita dor, quero passar com o doutor o quanto antes”. Se existir um horário, se for possível encaixar, a gente vai priorizar você com certeza.


Marina: Nossa, que legal, doutor, que bom isso.


Dr. Cláudio Watanabe: É, eu sei como é ser enxaquecoso, eu sou.


Marina: Tá certo, perfeito. Mesmo que você não vá consultar com o doutor Cláudio, vale a pena seguir as instruções dele. O perfil dele no Instagram é fenomenal, tem várias dicas, inclusive coisas bem legais. A gente fala de exercício, mas ele mostra quais exercícios podem piorar a dor. Ele fala até sobre como prender e soltar o cabelo, porque isso também influencia.


Vale a pena maratonar o Instagram dele, porque as dicas são ótimas para quem tem enxaqueca. Então era isso. Estamos terminando. Doutor, obrigada e parabéns pelo seu trabalho. Muito bom, dá muita esperança para quem ainda está sofrendo com enxaqueca.


Dr. Cláudio Watanabe: Eu que agradeço vocês pelo espaço, pela abertura, pelo interesse. Eu acho isso muito legal, porque quanto mais gente interessada, menos preconceito existe. Como eu falei antes, quanto mais informação, menos as pessoas sofrem. Só quem vive na pele sabe como é difícil, então esse espaço é muito importante.


Também dá esperança para as pessoas. O que eu mais vejo aqui são pacientes desacreditados, que achavam que nunca mais iriam resolver nada, e quando conseguimos ajudar, isso enche nosso coração de alegria. A gente vê a pessoa recuperar a força, a energia, a capacidade. É um trabalho que fazemos com muito amor mesmo, com muito coração. Toda a equipe sabe como é.


Muito obrigado mais uma vez. Precisando de qualquer coisa, qualquer dúvida, manda pra gente no Instagram. Estamos lá para responder. Às vezes eu demoro um pouquinho, porque sou eu mesmo que respondo, não é robô, não é outra pessoa, sou eu. Mas a gente responde e tenta sempre ajudar ao máximo.


Marina: Maravilha, um abração, boa noite a todos!


Dr. Cláudio Watanabe: Até mais, tchau, tchau!



 
 
 

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