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Entrevista com a Fabiola Dach, uma conversa que integra ciência, prática clínica e esperança para os pacientes que sofrem de enxaqueca.

  • Foto do escritor: Telix
    Telix
  • 8 de set. de 2025
  • 22 min de leitura

Atualizado: 27 de out. de 2025

Marina: Bom dia, hoje vamos descobrir como você, que convive com a Enxaqueca a anos, pode ter esperança de se livrar desses problemas. Para isso, vamos conversar com a doutora Fabiola Dax, ela é médica, professora de neurologia e responsável pelo ambulatório de dor de cabeça do Hospital das Clínicas da USP de Ribeirão Preto. Além disso, a doutora Fabiola é palestrante internacional, e suas linhas de pesquisa têm uma característica muito rara e especial para quem tem dor de cabeça. Elas são multidisciplinares, ou seja, elas abrangem tanto a área de neurologia quanto fisioterapia, disfunção temporomandibular, que geralmente é tratada por dentistas. Seja bem-vinda, doutora Fabiola!


Fabiola: Muito obrigada, obrigada por me receber pelo convite, é sempre muito bom estar falando para as pessoas do que a gente anda fazendo, afinal, a nossa universidade é pública e essas informações de algum jeito tem que chegar na população. Marina: Nossa, a gente agradece, doutora, porque como o Telix tem essa expectativa de possibilitar a comparação de tratamento de diferentes áreas da saúde, é muito emocionante essa oportunidade que a Fabiola deu, porque ela que pratica essa interdisciplinaridade na carreira dela tanto como professora, como pesquisadora e como gestora na área da saúde. Então, doutora Fabiola, uma pessoa que tem enxaqueca há 10 ou 20 anos e vem tratando essa enxaqueca como edificação, ela pode ter a esperança de ficar livre da enxaqueca?


Fabiola: Veja só, a enxaqueca, ela é uma doença, primeiro a gente tem que entender isso, em geral, as pessoas não entendem ela como uma doença, e sim como uma dor de cabeça normal, né? ela não traz grandes consequências como óbito pela enxaqueca, então acham que é uma coisa normal da vida, não, ela é uma doença, né, leva uma incapacidade da operação da qualidade de vida do indivíduo e ela tem componente genético, ou seja, a gente vê naquela família, numa família de paciente enxaqueca, que tem mais de um indivíduo, geralmente em todas as gerações, sempre tem alguém que tem enxaqueca. Então, ela tem componente genético e ambiental, o genético eu não consigo mexer, eu nasço com aquilo, tá lá no meu DNA, mas o ambiental sim, então, o que a gente entende da migrânea, eu não consigo ter cura dela por causa desse componente genético, mas consigo ter um controle não só pelo uso de medicamento, mas pelo ambiente, O que a gente fala de ambiente? Quem tem enxaqueca que sabe, a gente está numa fase mais estressada da vida, O ambiente não está a nosso favor, a gente começa a ter mais crise, tô dormindo pior e engraçado que seja dormir muito também pode desencadear mais crise, então ele depende do ambiente, mas fato é que cura, cura a gente nunca pode dizer que tem que ter esse componente genético.


Marina: Entendi. Doutora, Então o profissional que ela precisa procurar é realmente o neurologista, mas vou fazer uma pergunta, mas a doutora falou que ela pode ter a expectativa de melhorar, de controlar. E onde ela deve fazer de diferente, o que tipo de profissional de saúde ela deve consultar para conseguir esse resultado de não ter mais dor de cabeça ou de ter menos dor de cabeça?


Fabiola: Bem, são muitos os tipos de dor de cabeça, são muitos, são centenas de tipos, né, mais de 150 tipos diferentes. Em geral, essas cefaleias que não atentam contra a vida da gente, que a gente chama cefaleias primárias, né, a vai ter o longo da vida, né, e muita gente acaba se acostumando e entendendo que ela não é essa ameaça à vida. Quando essas crises são muito esporádicas e elas são repetitivas ao longo da vida, de uma mesma maneira, quer dizer, nada de diferente de uma crise para outra, eu não necessariamente preciso ir num neurologista, não preciso nem um profissional de saúde mesmo, eu faço uso do analgésico, sei que resolve. O problema é quando essa dor que eu tinha, eu surjo com uma dor diferente, por exemplo, “nossa, essa dor eu nunca tive”. ou ela muda de padrão, ela era de um jeito, ela vem mudando, ou ela intensifica, ou ela aumenta de frequência, que de alguma maneira está diferente do que eu tinha, ou eu nunca tive dor de cabeça e passo a ter, repente, mais depois de 30 anos, que é mais difícil de começar a surgir na vida da gente a dor de cabeça, eu preciso procurar um especialista, uma pessoa que seja capaz de fazer o diagnóstico, diferenciar a minha dor de cabeça das demais, para ver se eu preciso investigar, né? Tem dores de cabeça que têm tratamento completamente diferente de uma da outra, né? Elas têm, em geral, tratamento diferente, se ela é muito episódica, eu não precisaria, o que a gente quer dizer com episódio? uma vez no mês que eu consiga resolver com ela tomando facilmente a analgésico. Se eu tiver, por exemplo, um mês, uma crise por mês, mas que ela tenha um impacto muito grande na minha vida, eu preciso, eu preciso ir atrás, ver o que é para conseguir adequar um tratamento melhor para mim, mas se ela é muito esporádica, faz muito preciso, mas eu indicaria que procurasse caso fosse um profissional que fosse um neurologista. Isso porque, me alongando um pouquinho mais, para fazer o diagnóstico eu preciso ter um exame neurológico normal. Então precisa estar sendo uma pessoa que saiba fazer um exame neurológico, e aí isso quem está apto a isso é o neurologista mesmo.


Marina: Entendi doutora, então o profissional que ela precisa procurar é realmente o neurologista… Agora eu vou fazer uma pergunta que é importante tanto para o paciente se preparar e saber o que terá do médico, mas também é útil para o ambiente cultural, o médico da família ou até o recém-formado que não é um neurologista, não tem esses anos de estudo, mas que o paciente procura ele, com esse problema de enxaqueca, como é que nesse caso a doutora procede? chega um paciente com enxaqueca no seguinte cenário: ele tem essa enxaqueca uma vez por mês, ela é incapacitante, naquele dia que ele tem enxaqueca ele não consegue trabalhar, ele precisa geralmente entrar no quarto fechado, faltar no trabalho, e é uma coisa que ele já tem há anos, eventualmente tem da mãe e do pai, mas ele gostaria de não ter mais isso, gostaria de não ter essa vida inconstante, que ele nunca sabe se ele vai conseguir cumprir as atividades, seja de lazer ou de trabalho que ele tem planejado para esse dia, como é que a doutora procede para atender uma atividade com esse perfil?


Fabiola: Eu tenho duas possibilidades, eu explico para o paciente o que a gente pode fazer, eu acho que a primeira opção seria melhorar o tratamento da hora da dor dele. Se ele só têm uma crise, talvez o tratamento não esteja bom dessa fase aguda, então eu oriento, “olha, o remédio tem que ser tomado quanto antes” se eu fico curtindo a dor, que é muito frequente, o paciente esperando ela ficar muito intensa, levar ele a incapacitação, às vezes o medicamento leva um tempo, às vezes ele não é eficaz, às vezes ele demora muito para fazer efeito. O que acontece um processo de sensibilização lá no sistema nervoso central com o andar da crise, então, quanto antes, isso é uma primeira orientação, o outro é tratar, usar o medicamento, uma dose adequada para aquele paciente, às vezes toma-se subdose, então ela não é eficaz por isso, quanto antes é mais adequado e se ele já está fazendo esses dois passos, significa que aquela medicação não está sendo eficaz eu posso associar vários medicamentos, eu posso usar classes diferentes ao mesmo tempo, eu posso usar três tipos de medicamentos para acabar com a crise na hora, analgésicos simples, anti-inflamatórios e, por exemplo, as triptanas, eu posso associar tudo isso, e caso isso não for eficaz, aí eu tenho uma outra possibilidade que é o uso de uma medicação diária, que a gente chama de medicação profilática ou preventiva, que a ideia é evitar que eu tenha crise. Então nós temos duas possibilidades, melhorar o tratamento agudo primeiro e ver se a gente encontra um tratamento eficaz, porque aí ele não precisaria tomar remédio todos os dias para evitar, se essa não for uma possibilidade, e ainda não consegui controlar muito bem o paciente, ficou incapacitado, apesar de todo esse manejo agudo, eu uso a profilaxia, e claro tem outra opção ainda, os dois juntos.


Marina: Entendi, entendi, doutora. A doutora citou que tem esses 150 tipos de enxaqueca, não é? e a doutora falou que tem que, nesse caso, assim, é necessário solicitar exames, a doutora costuma solicitar algum exame na primeira consulta para identificar qual desses 150 tipos de enxaqueca que a pessoa tem? ou isso não é necessário? só com a conversa você já consegue fazer um diagnóstico?


Fabiola: O diagnóstico é baseado na namenese, que é essa troca de informações entre médico e paciente, o exame físico geral e o exame neurológico, eu preciso dessas ferramentas para eu poder me basear nas características da dor no exame do paciente e pensar na possibilidade que pode ser, então, na hora que eu tô conversando, quando eu examino, abre-se um leque ou ele, às vezes na hora que eu tô conversando, abre-se um leque enorme, eu vou lá e examino e tento reduzir esse leque de possibilidades. A grande maioria das dores eu não preciso de imagem nenhuma, a grande maioria, pra você ver aqui no nosso serviço, dentro do HC, a gente tem um trabalho publicado, já faz muitos anos isso, ele na verdade ele é a foto daquela época, não de hoje, mas a gente tinha 75 % dos nossos pacientes do HC, que são pacientes que a grande maioria chega lá com dor diária, todos os dias ou quase todos os dias, 75% não tinha nenhum exame, a gente nunca pediu, porque o que é importante é isso, você com a conversa com paciente, isso é importantíssimo, e examinar, por a mão, ver de onde vem a dor, ver se tem alguma alteração neurológica. É importante fazer fundo de olho, é importante não, é fundamental olhar lá dentro para ver se o paciente tem um negócio que a gente chama papilhedema, então isso é importante, com isso, eu consigo ver as características se são benígneas da doença ou não, e a gente tem um negócio que a gente chama de red flags ou bandeiras vermelhas que fazem ficar alerta, ou sinais de alerta para uma possibilidade de uma condição não primária, ou seja, uma dor de cabeça secundária a alguma outra doença. Então, vou dar uns exemplos aqui, eu falei no exame neurológico, a gente examina o paciente e eu vejo que ele tem uma alteração neurológica, isso é um alerta, né? quer dizer, e essa alteração surgiu com o início da dor, né? Isso é um alerta, alguma coisa tem na cabeça, né? o paciente perdeu força no braço, começou com a dor de cabeça, perdeu força no braço, alterou a sensibilidade, alterou a visão, está enxergando duploo, por exemplo, teve uma crise convulsiva com a dor de cabeça, não tinha dor cabeça, veio a dor de cabeça e começou a ter crise convulsiva. Perdeu a consciência ou reduziu o nível de consciência, a dor de cabeça que surge, que o paciente nunca teve na vida, mas surge após os 50 anos, é um alerta também, porque como eu tinha falado lá atrás, as cefaléias primárias, enxaqueca, tudo, a grande incidência, o início de casos surge mais ali até os 30 anos. Depois dos 50, existem casos novos? Existe, mas são mais raros e aumentam as chances de eu ter outras doenças no cérebro, então isso é um alerta, criancinhas muito pequenininhas também, lá abaixo dos cinco anos, isso também é um alerta, paciente que sofre um trauma, por exemplo: bateu a cabeça e de repente começa com a dor. Isso é um alerta, não significa que eu vou precisar pedir a imagem para todas essas coisas, mas isso é um alerta tanto para o paciente quanto para o médico que está vendo o paciente. Então é importante, mas assim, na grande maioria não, porque as cefaleias em ambiente ambulatorial, no consultório do paciente, elas são a grande maioria primária, as secundárias onde que elas vão ser mais prevalentes num hospital, num nível de emergência dele, e principalmente se ele é em um serviço de regulação, como é a nossa unidade de emergência aqui da HC, quer dizer, paciente tem que procurar o posto para depois ser encaminhado, nesse tipo de serviço, as cefaleias secundárias são mais prevalentes, mas no posto de saúde, mesmo no posto, no ambulatório, em consultório, grande maioria é primária mesmo.

Marina: Primária mesmo, e aí é essa a questão da medicação para crise e a medicação profilática. Fabiola: E cada tipo de dor tem o seu. Marina: Entendi, entendi. Doutora, conta pra gente o que a levou a se interessar pelo tema da dor de cabeça? Fabiola: Sabe que eu vim aqui, eu moro aqui em Ribeirão há 20 anos, né? Terminei minha residência e vim pra cá com interesse de fazer pós-graduação. E eu conheci o meu professor na época que me recebeu no serviço dele, professor Dr. José Geraldo Especiali e o Dr. Carlos Alberto Bordini também, eram desses, foram os criadores desses serviços, eles me receberam bem, comecei a me interessar pelo serviço, dor e aí eu já fui fazer minha pós-graduação nessa área mesmo, eu fiz no tema enxaqueca mesmo, né. Eu  acabei fazendo doutorado direto já, porque na graduação eu já tinha feito pesquisa, então eu pude pular a etapa do mestrado e fazer o doutorado direto. E foi na área de enxaqueca com a medição da pressão arterial desses indivíduos, um projeto bem legal. E aí de lá pra cá vim fazendo, comecei a participar de várias pesquisas, acabei fazendo concurso para hospital, virei neurologista, primeiro, a neurologista participante desse ambulatório, né, porque o doutor José Geraldo ainda estava ali. Quando ele se aposentou, abriu um concurso para professoria, eu prestei, aí desde então sou professora do serviço. Mas é o interesse da vida, acabou a vida inteira, eu trabalho com isso. Marina: Que legal, que legal. Aqui, é a nossa, o nosso interesse aqui nessa área de computação de dados de pesquisa de saúde, que é o tema do nosso trabalho aqui, foi mais pessoal, assim, eu sempre tive uma frustração quando algum parente, algum amigo ficava doente e não conseguia melhorar, passava por... eu sempre tive uma frustração com a dificuldade de encontrar informações confiáveis e até encontrar informações, comparáveis. Mas a gota-d'água que fez eu mudar a minha vida,por causa disso, começar a trabalhar com isso, foi quando a minha filhinha teve enxaqueca, você falou lá de criança, uma criança com dor de cabeça com cinco anos e levou um ano e meio para ela melhorar. A gente passou por nove médicos diferentes. Então, a gente está desenvolvendo esse serviço e a gente quer conversar com pessoas de destaque, que têm esse conhecimento profundo, para tentar reduzir esse caminho para outras pessoas, porque é muito angustiante ver uma criança, uma filha com dor de cabeça e não conseguir melhorar, entao reduzir esse tempo de encontrar solução é a nossa missão aqui. então, muito obrigada por estar contribuindo nesse projeto, doutora. Fabiola: Eu acho que, aproveitando se você me permite, bem isso, O que eu sugeriria na área de dor, de cabeça, então, qualquer área? Se você está vendo que ir no neurologista geral não está conseguindo, você esperar os 9, procura alguém que trabalhe especificamente com essa área, porque aí vai ser um indivíduo que dedica a vida só aquilo. É mais fácil a gente conseguir acertar, reduzir. Então, a gente deve ir no, pode ir no especialista já de cara, é claro. mas podemos ir num geral, por exemplo, um neurologista geral que faz todas as áreas, mas se vê que está demorando muito, não está... procura um especialista, uma pessoa que trabalha na área, que isso talvez encurtaria esse sofrimento da pequena. Marina: Verdade. Doutora, então o paciente depois que fez a análise, como que a doutora decide se vai adotar uma abordagem medicamentosa ou se vai ser fisioterápica ou se vai ser odontológico, como é que a doutora toma essa decisão? Fabiola: Bem, primeiro é sempre uma decisão em conjunto, minha e com o paciente, porque só ele pode me dizer o que ele estaria apto, porque tem algumas condições que nos tornou aptos ou não, hábitos desejosos, né? Eu quero isso, eu não quero, então, é uma conversa, oque que eu sempre falo ao paciente? Eu estudei isso e eu posso te mostrar as opções que a gente tem. A decisão é nossa. Eu posso te dar todas as informações do que que isso é bom, o quanto isso pode melhorar, o qual é o efeito colateral, mas a decisão é sempre junto com paciente. Por quê? Porque isso me facilita a aderência dela. A coisa que eu mais quero é que o paciente esteja aderente ao tratamento. Porque se eu decidir por mim, assim, o médico decidir por ele, sem o paciente desejar aquela situação, ou é uma coisa que não seria a melhor, o mais adequado para a vida, para a rotina do indivíduo, ele não vai fazer, né, porque eu tenho que facilitar tudo, e como facilita? Dividindo com o paciente isso e deixando ele nos dizer o que que é melhor para ele, o que que ele quer. com o que ele se engajaria mais, o que é mais fácil para ele. Então é sempre uma decisão. Com relação ao trabalho com outras áreas da área de saúde, isso vai depender o que a gente encontra no exame físico. Então, se eu vejo que um paciente tem, por exemplo, apertamento dentario, se ele tem muita dor na regiao do masseter, se eu vejo que ele está com um dente quebrado ou com fissuras no dente,ou com os dentes desgastados, ou em caminho para um dentista para fazer uma avaliação, porque a gente tem vários abordagens, até para proteger os dentes. Se eu vejo o paciente com uma dor muscular muito importante, mesmo num massetter, na região cervical, vejo que ele tem muitos pontos de gatilhos musculares para as dores dele, ou eu vejo que ele tem um encurtamento para essa musculatura, ou uma fraqueza para essa musculatura, eu encaminho para o fisioterapeuta que aí ele tem uma abordagem de alongamento, trabalhar esses pontos milifaciais, fortalecimento de musculatura cervical e isso tudo é importantíssimo, p e isso também deixa bem claro para o paciente, se a gente conseguir fazer tudo isso, a melhora vai ser mais rápida no indivíduo, vai ser tudo mais rápido. se a gente conseguir ter essa abordagem multiprofissional. Nem sempre é possível justamente por essa rotina. Às vezes o paciente tem uma rotina que não consegue fazer fisioterapia do jeito que tem que engajar, né, pelo menos uma vez na semana, né, para você conseguir fazer. E ele tem que ter um engajamento em casa, né, quer dizer, não é só na sessão, ele tem que ter um engajamento e fazer os exercícios que fisioterapeuta orienta em casa. Então Isso tudo é muito da rotina, mas eu sempre mostro todas as opções que no meu ver seriam importantes e se ele conseguiu o quanto mais daquilo junto, melhor, mais rápido é melhor. Marina: E é eficaz, doutora. Essas coisas funcionam realmente no sentido de preveniador e de reduziador. Fabiola: A gente tem pesquisa, tem uma área de pesquisa bem grande nessa área. A gente tem um estudo inclusive, foi um trial, que é um estudo controlado em que a gente fez medicação para os pacientes todos e um grupo fez a fisioterapia e outro só recebeu orientação. O que a gente viu? que o paciente que conseguiu fazer a fisioterapia, esse grupo, ele tiveram melhora mais precoce. Lá na frente, quando eu olhei o paciente já meses e meses depois, eu vi que aqueles que fizeram fisioterapia e usaram remédio, daqueles que só usaram remédio, lá na frente meses depois eles estavam semelhantes na quantidade, enteticidade e duração. mas os que fizeram fisioterapia, eles melhoraram antes, eles já estavam melhor antes. Então a fisioterapia adiantou essa melhora do paciente. Marina: Mas o cara que não fez a fisioterapia no longo prazo não ficou prejudicado porque foi o mesmo. Fabiola: Foi lá posterior só, digamos ele sofreu mais tempo. Marina: Entendi. Doutoria, tem alguma plataforma que os médicos possam consultar comouma guideline de alguma instituição ou uma plataforma que a doutora recomenda. Tem esse passo a passo de quais testes fazer, a doutora falou da amnésia, do teste neurobógico, como fazer isso, que a doutora usa na sua prática clínica, que outros médicos podem usar?


Fabiola: Eu sou professora aqui da USP, a gente tem uma plataforma mais dedicada aos alunos que a gente forma, não temos uma plataforma assim aberta, porque nessas plataformas, nessas aulas que a gente produz, tem exposição de medicamento, dose, então esse conteúdo a gente não tem como abrir porque é do ensino do médico, e é irresponsabilidade a gente expor porque se a gente colocar isso é porque gente poderia fazer mal para os indivíduos, terem acesso às drogas e pelo problema da automedicação. Isso é seríssima, a automedicação, né? a gente fazer mal para a gente mesmo. Então a gente... Porque tem conteúdos que não podem. A gente não tem uma plataforma aberta para a população, em geral, mas é uma coisa interessante de se fazer. Nós temos um grupo, eu participo do grupo, não sei se a gente pode até divulgar, que se chama DTM Cefaléia da USP. eu faço parte desse grupo e ali tem bastante informação sobre a parte da fisioterapia, tem muitas coisas interessantes sobre cefaleia, então eu indicaria esse Instagram para as pessoas seguirem, e de vez em quando eu vou lá e falo especificamente sobre a parte médica, a maioria são informações do grupo de fisioterapia e eu sou chamada para falar alguma da área médica mesmo, né? Mas eu não tenho plataforma, e a gente como pesquisador, e professor que a gente tem, o banco de dados que eu uso se chama PubMed, né? Um banco de dados internacional que tem as revistas de todos os lugares do mundo e você lá vê as publicações, né? E tá interada então de tudo que tá acontecendo, produzido, publicado no mundo inteiro.



Marina: Obrigada pela dica, sim, excelente. Exelente. Doutora, há muitas pesquisas na área de enxaqueca e cefaleia, com lançamentos de novas soluções que envolvem não apenas medicamentos, mas também gadjets. Por exemplo, o caso do cefaly, aquela tiarinha que na cabeça, abordagens dietéticas, o Botox, né? Como é que a doutora analisa, o que a doutora analisa numa pesquisa para considerar, né? para considerar e adotar essa inovação na sua prática clínica e nas suas recomendas com ele ou não? O que a doutora avalia na pesquisa? Fabiola: Bem, a pesquisa, eu dizer que um produto ele é seguro que ele funciona mesmo, eu preciso de pelo menos dois trials, de estudos controlados por placebo, quer dizer, um grupo eu uso um placebo ou uma estimulação sham, né, queé uma estimulação mentirinha quando eu comparo, por exemplo, Cefaly i lá que você falou, esses estimuladores periféricos, eu preciso ter pelo menos dois que avaliem a mesma situação, tem o mesmo desfecho e mostrem resposta favorável. Então, com isso eu consigo saber, o remédio ou o dispositivo realmente funciona e ele é seguro, porque no estudo eu consigo ver segurança a partir daí, eu tô autorizada a dizer essa informação que eu te falei e posso usar na prática. Porque depois tem outros tipos de estudo que saem, que é o pós comercialização, exemplo. Então sai um estudo com uma substância nova, faz-se pesquisa e vê, começa a usar. Eu faço pesquisa pós comercialização também. Claro, antes desse estudo em ser humano, esse primeiro que eu falei do trial comparando, tem estudos em modelo animal primeiro, tem estudos mais simples, antes num grupo menor de pacientes, para depois fazer para um grupo maior. Porque o teste a tem que ter certeza de que não vai ser maléfico, a substância não vai ser maléfica. Então é dessa maneira. Então eu ali como ensino e guio a minha prática por essas situações de substâncias que são estudadas e mostrem segurança. E se eu não tenho estudos tão robustos assim, tão robustos e eu não sou impedida de usar, desde que eu saiba se ele tem algum malefício para o paciente, mas o paciente também é informado disso. Isso aqui a gente tem a nível de evidência 1A, esse aqui é nível B, significa que eu tenho um daqueles estudos, os outros são menores, não são gigantes, mas também está mostrando que todo o joio que funciona, E várias drogas são assim também, por exemplo, o que acontece para a ter estudos grandes? Substâncias novas surgindo. Eu tenho muitas substâncias antigas, que a gente chama de vários anos de existência, Que não vão ser mais estudadas, né? Elas são substâncias baratas, que estão indo ao mercado, laboratório não tem interesse em fazer estudos com isso, né? Então, isso seria, a gente conseguiria ter evidência maior, estudos grandes, se algum pesquisador se interessasse por aquilo, mas em geral que se interesse por coisas novas, né? O laboratório vai se interessar, a universidade vai se interessar por surgimento de novas opções. Então, é possível eu ter substâncias mais antigas que não tem estudos tão robustos, mas que são usadas há séculos aí, e às vezes ela não é específica, por exemplo, no estudo para enxaqueca, mas ela tem, por exemplo, para epilepsia, para depressão, então eu uso a segurança desse outro estudo, nossa, quando esse remédio foi usado para pacientes com depressão, ansiedade, mostrou segurança total. Eu então tá joia. Eu não tenho estudo tão robusto enxaqueca. Eu sei que funciona os estudos tão mostrando, e ele não traz malefícios para o paciente ou tem determinados efeitos colaterais, Então é mais ou menos desse jeito que a gente trabalha. Marina: Nossa, perfeito, doutora. Eu sei que o seu tempo está curto. Posso fazer uma última perguntinha? A doutora falou de quantidade de pacientes no estudo, né? A partir de qual quantidade de pacientes a doutora acha adequado, assim?



Fabiola: Depende, por exemplo, eu quero testar e em geral a gente acaba não fazendo isso com medicação, mas por exemplo com neuroestimulação, quero ver se eu consigo, no caso que a gente faz da fisioterapia, ver se eu fizer tal mobilização no pescoço, eu melhoro o indivíduo, independente do tipo de pesquisa, né, fisioterapia, o meu desfecho, eu consigo calcular quantos indivíduos eu preciso para aquele meu desfecho, então, seja um neuroestimulador, seja um remédio, seja fisioterapia, eu me baseio no desfecho que eu quero, o que eu quero nesse tratamento e eu consigo calcular por meio de... calculos os matemáticos mesmo, né, na estatística. o quanto mínimo de indivíduos eu preciso para que o que eu encontrar seja mais próximo da verdade do que por acaso. Marina: Então não tem o número mágico, mil pacientes... Fabiola:Depende do que eu quero testar e do que eu quero ver. Então vai depender disso. Qual é a minha ferramenta? o que eu vou analisar e qual desfecho que quer. Mesmo eu fazendo o mesmo tratamento, dependendo do desfecho vai mudar a quantidade de indivíduos. E a ideia é essa, eu preciso calcular porque eu posso encontrar coincidências ou achados ao acaso, então eu tenho que reduzir isso e a matemática que nos ajuda a reduzir. Então ajuda eu até a certeza de que aquele meu resultado é de 95%. Por exemplo, tem estudo que é 98%, você que escolhe também essa porcentagem no seu cálculo e que aquilo não seja ao acaso aquele achado, que ele seja real. Marina: Entendi, entendi. Ok, que pena pra gente, ser ótimo se tiver esse número mágico ali e colocar com filtro, olha, só vou exibir, às vezes, com mais de 100 pacientes ou com mais de mil pacientes, então não tem esse critério.



Fabiola: Pesquisa é uma coisa bastante difícil para que você, o que a gente quer, que aquele nosso resultado seja o mais fidedigno, e que tenha retorno para a população de uma maneira ou de outra. Desde o estudo animal, a ideia é retorno para população, sempre é. Eu começo o estudo em um modelo animal, né, e às vezes inicio num grupo pequeno, mas sempre o retorno de qualquer pesquisa na universidade é o retorno para a sociedade, né, isso no geral. então não existe, infelizmente, e é muito árdua o pesquisa, ela precisa de muita dedicação, precisa ter conhecimento para você não cometer esses erros, por exemplo, né, de fazer um estudo da cabeça e não ter esses cálculos em mente, e aí chega lá na frente, você vai ver que você não tem como mostrar que você tem o resultado é fidedigno, porque ele tá perto do aceitável, matematicamente, da realidade, né. Então é um trabalho árduo, mas é gostoso. Quem gosta de fazer pesquisa fica muito feliz, os olhos brilham, e sempre tá procurando um conhecimento, né? Então você lê, você estuda, você vê paciente, nossa, será que isso acontece? Vamos ver se isso aqui tá acontecendo, né? Vamos ver essa alteração física se existe, né? Se essa substância é bastante eficaz do jeito que parece que é. Marina: Legal, Doutura Então, eu queria agradecer, a entrevista foi super útil, para sabe que essa busca para saúde é tão difícil e requer tanta coisa para acontecer, a vontade, a dedicação do paciente, a existência do médico, mas também precisa de laboratório, de ter disponibilidade de remédio, de ter hospitados, clínicas, exame, é realmente um ecossistema complexo, né. e aí foi muito legal conversar com uma pessoa que contribui de tantas maneiras nesse cenário, seja formando novos médicos como professora, atendendo diretamente pacientes, contribuindo com a ciência, com pesquisa. Então foi uma grande honra mesmo ter a doutora aqui na nossa plataforma. A doutora falou que talvez gostasse de falar um pouquinho de algum projeto que doutora está trabalhando agora. Se a senhora quiser compartilhar com a gente o essa doutora acha importante.


Fabiola: É assim, felizmente, quando a gente está numa grande universidade, a gente consegue fazer percerias de pesquisa com várias áreas da medicina, Então aqui, por exemplo, em Ribeirão Preto, em consórcio com, por exemplo, São Luís, que também participa, e Pelotas, existem co-hortes. O que são co-hortes? São estudos, né? São estudos que acompanham o indivíduo, por exemplo, nesse caso nosso aqui, que tem na nossa universidade, ela acompanha o indivíduo desde o seu nascimento. Eu tinha até te falado, né, a gente tem uma corte que acompanha o indivíduo desde o nascimento e hoje tem 49 e 50 anos já esse indivíduo. Então eles foram avaliados várias vezes durante a vida dele. Isso traz informações riquíssimas, né? para eu conseguir saber sobre prevenção, por exemplo, sobre se o paciente é exposto a tal condição, o que acontece lá na frente... eu consigo ver essas coisas. Nossa, ele foi para o CTI, quando ele nasceu ele precisou do CTI. Lá na frente eu posso ver se será que esse indivíduo, essa criancinha, esse bebê que nasceu e precisou do CTI, ele tem mais dor do que o outro indivíduo? Porque no CTI a criança ela é toda hora tá sendo picada, Algumas crianças entubadas e então a gente pode ver um monte de coisa e com isso conseguir prevenir. Eu posso ver se é amamentação nessa criança, Eu tô falando da minha área, mas esses estudos eles são em todas as áreas, Tem avaliações cardiológicas de toda parte pediatria, alimentar tudo. Então é uma fonte gigantesca de informação e a ideia é isso, para eu poder entender o que acontece ao longo da vida, essas coisas que o indivíduo se expõe, o que acontece na vida, para eu conseguir dizer nas políticas públicas, "olha se você fizer isso, você tem tanta chance lá". O tabagismo é isso, por exemplo, eu consigo ver um indivíduo que fumou ao longo da vida, que aumenta a chance de câncer em vários lugares no corpo. É desse tipo de estudo que a gente fala. Então aqui, Ribeirão tem isso acompanhando tem uma corte que começou entre 1976 e 1977, então pegou todos os nascidos vivos aqui em Liberão. Nesse tem uma de 1984 e tem uma de 2010 agora, então que as crianças estão com 14, 15 anos, e é isso aí, a gente vai avaliando ao longo da vida e podendo ver o que está acontecendo, quem que tem tal doença, quem que está com tal condição e porque ele foi exposto até agora, pra gente ver se encontra alguma relação entre isso e por poder dizer assim, "não se exponha" se a gente se expuser a tal substância, tem chance de eu ter uma doença. Marina: Legal, interessante. Fabiola: A pesquisa é fantástica, é fabulosa e é um grupo que se chama Nesca aqui que é coordenado pela pediatria que desde sempre foram os idealizadores lá, uma década atrás, meio século atrás, cinco décadas atrás, pensaram nisso e começaram e de tempo em tempo chama-se os indivíduos de novo, mas é um gigantesco e também é de orgulho imenso que eu, como colega deve ter um orgulho porque é muito difícil isso, conseguir fazer isso numa população tão grande assim, E com resultados que são importantíssimos para a ciência. Marina: Nossa, é muito legal. Eu nem tinha ideia que aqui no Brasil, numa faculdade pública, tivessem estudos de tão longo prazo, né? Muitos estudos divulgados de Harvard, dos Estados Unidos, de acompanhar essas populações por pouco tempo. mas eu sinceramente não tinha ideia que aqui no Brasil estava sendo feito três estudos tão grandes e tão amplos, é muito legal. Com certeza essas pesquisas merecem destaque para que elas possam trazer a contribuição para a sociedade, para que todos os médicos e os pacientes possam se beneficiar desse conhecimento rico que é gerado. Que legal, Doutora. Parabéns, parabéns mesmo.



Marina: Obrigada pela participação, eu vou liberar porque a doutora falou que tinha esse compromisso. Queria poder ficar conversando aqui mais tempo, tinha umas 10 perguntas a mais na minha lista, mas quem sabe em outras oportunidades Fabiola: Isso, podemos marcar, podemos combinar outra. Você tem interesse e eu gosto de falar desse assunto junta o último agradável e pronto, mas a gente pode combinar uma outra data simMartina: Que legal, espetáculo, doutora. Obrigada, obrigada a vocês que estão assistindo aqui ao vivo e o pessoal também que vai assistir depois a gravação. Espero que a entrevista seja bem assistida para vocês. Uma abração!


Fabiola:Tchau!

 
 
 

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